quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Império dos Sonhos - Resenha


Aquecimento:

David Lynch, ou você ama toda aquela viagem onírica metefórica, com personagens estranhíssimos e situações esquisitas, ou você simplesmente odeia a temática e as maluquices do diretor, mas ficar indiferente é impossível.

Inland Empire (Império dos Sonhos), seu novo filme, é feito para testar aqueles que amam mesmo, para testar a fidelidade dos fãs. Como se dissesse: “Ah é? Você acha que gosta dos meus filmes só porque viu Cidade dos Sonhos e ficou todo feliz quando leu a interpretação na internet depois, ou achou o anão de Twin Peaks engraçadinho. Vamos ver agora se você vai continuar gostando”. Ou então “Vamos ver se até aqueles que viram Estrada Perdida ou Eraser Head conseguem aturar esse.” Ou mesmo, parafraseando o Capitão Nascimento, Lynch parece dizer: “Pede pra sair, pede!” e é o que acontece, na sessão que eu fui (e nas outras também, por relatos que já li), no Festival do Rio, muita gente que estava na sala desistiu de assistir até o final e foi embora (tudo bem que as condições da projeção também ajudaram pra isso, como relatei no post Império dos Sonhos na Sala dos Pesadelos, abaixo).

Mas então o filme é ruim? Eu, definitivamente, achei que não. Mas você tem que mergulhar de cabeça na viagem de Lynch e esquecer que existe coerência e racionalidade enquanto as luzes estão apagadas. Dê ouvidos à mestra Clarice Lispector quando ela diz: "Suponho que me entender não é uma questão de inteligência e sim de sentir, de entrar em contato... Ou toca, ou não toca", e “Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras."

Se você parar pra pensar, essas frases podem ser aplicadas perfeitamente a obra de Lynch. Em primeiro lugar: os filmes dele são pra sentir e sim, eles tocam. Você vai rir, vai ficar angustiado, vai ficar muito, mas muito perdido e confuso, tal qual a protagonista. E segundo: não entender Inland Empire pode não ter mesmo fronteiras. As interpretações acabam sendo as mais variadas possíveis (apesar de eu ter achado poucas por ai, acho que estão com medo de tentarem não entender, ou assumir que não entenderam hehe). Já vi interpretações que apontam o filme como crítica a Hollywood e a indústria de sonhos, crítica a TV, exploração sexual, alienação, prostituição, se bobear, até crítica contra a criação de coelhos em cativeiro é capaz de terem feito.

Como eu gostei muito do filme e não entendi tão bem, é claro que não vou ficar com medo e também vou postar minhas teorias mirabolantes aqui e espero que sirvam pra que mais gente que também não entendeu perfeitamente venha e diga “Ei, essa suposição não tem o menor cabimento, tu viajou mais que o Lynch ao afirmar isso” ou “É faz sentido isso que você disse”. Então leia a resenha e depois passe para o post de teorias, logo abaixo e claro, comente as suas também.

Resenha:

Vamos lá então. A sinopse do filme diz que uma atriz, Nikki (Laura Dern), consegue um papel para interpretar um filme, que na verdade é um remake de uma obra estrangeira, baseada num conto cigano, que nunca foi finalizada. Os dois protagonistas do filme original foram mortos e desde então acredita-se que o filme é amaldiçoado. Como se não bastasse, a vida de Nikki começa a se confundir e misturar com a vida da personagem que interpreta, Sue. Por sua vez, cenas do filme original ou da vida atriz do filme original também começam a pipocar esporadicamente e tudo vai se misturando numa história misteriosa com ligações obscuras entre personagens e fatos. Corredores sombrios e clima de deixar muito filme de suspense no chinelo, labirintos intermináveis, paixões mal resolvidas, traições, assassinatos, perda da noção de tempo e espaço e uma família de coelhos gigantes que usam terno ou passam roupa, “é desse tipo de merda que estou falando” , roubando uma fala de Laura Dern em uma de suas várias identidades. Já a micro-sinopse apenas diz: Uma mulher em perigo (ou com problemas,com dificuldade, em apuros ou como quiser).

O filme foi rodado em digital e abusa de closes que aproximam ao máximo o rosto dos atores de ângulos estranhos. É bastante escuro na maior parte e a maioria das cenas são em ambientes interiores, com muitos corredores sombrios e apertados que levam aos mais estranhos lugares. Laura Dern interpreta sabe-se-lá-quantas personagens e é impressionante como ela muda de uma pra outra.

Todos os elementos típicos de um filme de David Lynch estão em Império dos Sonhos: cortinas vermelhas, luzes piscando o tempo todo, tanto vindas de lâmpadas quanto vindas de lugar nenhum, personagens misteriosos,personagens bizarros, personagens videntes, personagens que desaparecem do nada, dimensões paralelas, situações surreais, conversas sem nexo, entre outras.

Diferente de Cidade dos Sonhos ou Estrada Perdida em que a primeira metade do filme é quase normal e compreensível, Império dos Sonhos chuta o balde e já começa totalmente desvirtuado da realidade, logo de começo já aparecem os misteriosos e bizarríssimos coelhos. Diferente da versão curta-metragem, aqui vemos Jack Rabbit (o coelho de terno azul), sair do apartamento. E quando o telefone toca, vemos quem está ligando (e eu choro de rir toda vez em que entram as risadas falsas nessa hora). Uma vizinha maluca visita Nikki e já faz toda uma confusão com a noção de tempo. Após bagunçar a cabeça do espectador, é apresentada a historinha básica do filme amaldiçoado e a atriz e sua personagem começam a se misturar e daí pra frente, pode apertar o cinto, pois é só viagem atrás de viagem, corredores que levam para outras dimensões, furos em roupa de seda para espionar ainda mais dimensões, prostitutas em uma casa, prostitutas em Hollywood, prostitutas na neve na Polônia, muitas prostitutas fazendo um número musical que vai ficar na sua cabeça “C’mon baby, do the locomotion”. Um cara estranho conhecido como “The Phantom” e, sem querer dar uma de narrador da sessão da tarde, muita confusão. Tanto da protagonista como sua.

E não espere por uma conclusão para te tirar desse universo confuso que você caiu, o filme termina com um final tão ambíguo e estranho que não vai te ajudar em praticamente nada. Você sairá do cinema tão confuso quanto entrou. Se estiver pronto para quase 3 horas de viagem por uma mente em apuros, recomendo muito que assista Império dos Sonhos. Caso não tenha certeza, passe longe, pelo seu próprio bem e pelo bem da sua sanidade mental.

Um comentário:

Carolina disse...

Thiago,
bem legal essa resenha, seu texto...tudo :)
Quem é fã do cara rs, vai adorar!!
Bem bacana..
beijos,

Carol(Dorothy) rs